quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A merecida e facilitada vida de Vitória


Nunca fui jesuíta nem vieirista, mas admito que um foi um razoável treinador e outro está-se a tornar num muito razoável presidente.

 Neste defeso Vieira resistiu, e bem, se bem que a alternativa fosse muito estreita, a encetar uma fuga para a frente e, não indo no canto de sereia dos comentaristas e empresários futebolísticos, resistiu a contratar por contratar.

Ao fazê-lo, e parecendo que desguarnecia a equipa de futebol, na verdade acabou por reforçar o apoio ao treinador e dar-lhe um voto de confiança. Mas também à equipa.

Vieira tinha afirmado que iria apostar na formação e ao manter a promessa, concretizando-a, de ficar com cinco jogadores oriundos da formação, que já passaram a seis com a inclusão de Vitor Andrade na equipa principal, dos quais três já começaram a jogar oficialmente, acaba por implicitamente afirmar que tem confiança no treinador e que não precisa de mais jogadores vindos do exterior, muito provavelmente e como tantas vezes aconteceu, de duvidosa capacidade para entrar de caras na equipa, para se bater pelo campeonato e fazer os mínimos na Champions League.

Esta opção leva inevitavelmente a baixar as expetativas e por isso mesmo a pôr o treinador numa posição mais cómoda e livre de qualquer percalço.

Se Vieira suportou Jesus para lá do suportável, seria incompreensível e contra toda lógica e forma de pensar dele que Vitória, nesta situação de menor investimento, pudesse sofrer uma maior e mais severa avaliação, logo neste primeiro ano como treinador.

É pois minha convicção que, independentemente das opiniões sobre o perfil ou capacidade de Rui Vitória para liderar a equipa do Benfica, se não vai ter as mesmas condições a nível de jogadores que teve Jesus, vai, pelo menos e nos tempos que correm é bastante importante, contar com um apoio do presidente que o deixará tranquilo durante muito tempo.

E Rui Vitória merece.

Não só porque é justo ter tempo para mostrar o que vale, e o lastro que traz permite-lhe ser concedido o beneficio da dúvida, mas porque tem sido duma lealdade, profissionalismo e correção para com Vieira e para com o clube, que deve ser registado e fica a léguas daqueles que Jesus demonstrou no seu percurso no clube, onde bastas vezes chorou e chorou o suficiente para mamar à grande e à francesa.

Pode pois estar Vitória descansado que não será por falta de apoio de Vieira que falhará no Benfica e a maior prova disso é, paradoxalmente que possa parecer, este menor investimento na parte final da janela de transferências e o deixar bem claro que a aposta é nos jogadores da casa e, consequentemente, num tipo de treinador que Rui Vitória nesta altura melhor personifica.
 
Citizen Red  

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

ENTENDIMENTOS À ESQUERDA



Nestas eleições, aquilo que parece ser, apesar de tudo, mais certo dentro da incerteza da situação é que não haverá maiorias absolutas.

Esse objetivo permanente e máximo do centrão, nos últimos tempos acolitado pelo ex. partido do táxi, que foi entretanto rebatizado por arco da governação, já não convence ninguém, nem ninguém, incluindo o seu mais recente defensor, Cavaco Silva, acredita que venha a ser alcançado.

Neste provável quadro político e com a direita esgotada na capacidade de união de votos e consequentemente, mandatos – talvez pudesse acrescentar os provavelmente escassos oriundos do CM, perdão, de Marinho Pinto –, somente a esquerda parlamentar, poderá, em tese, alcançar uma situação de maioria pós eleitoral.

Mas como as sondagens indiciam, e elas valem o que valem mas sempre valem alguma coisa, somente os votos e mandatos do PS e PS juntos poderão eventualmente constituir essa maioria politica. Acrescente-se ou não os mandatos do BE.

Ora, sendo muitas e profundas, à partida, as divergências programáticas entre esses partidos e tendo que haver cedências de parte a parte, é minha opinião que duas circunstâncias irão condicionar essa já de si difícil possibilidade.

Em primeiro lugar o interesse de cada um dos partidos em que esse entendimento global se faça e que permita uma solução governativa estável, ou seja para uma legislatura.

Em segundo lugar a correlação de forças que entre eles se possa vir a existir e que possa moldar e justifique o tipo e grau de cedências de ambas as parte.

Isto não contando com as inultrapassáveis linhas vermelhas que cada um colocará em cima da mesa.

Havendo ou não uma vitória com maioria relativa do PS ou da própria coligação de direita a verdade é que se a direita governar isso só seria possível com os votos favoráveis ou a abstenção do PS.

Como as afirmações de A Costa foram claras em estabelecer que somente com a invasão marciana, que não é expectável, poderia coligar-se com a direita, parece ser do seu maior interesse encontrar uma forma que lhe permitisse ser governo neste outono. Ou então será a sua completa descredibilização pessoal e politica.

Por outro lado o PC não estaria interessado em dar uma mão ao PS para este governar em rédea solta, traindo o que desde sempre afirmou e traindo também o seu fiel e difícil eleitorado, pelo que só um entendimento firme e claro o poderia fazer mudar de paradigma politico.  

Por outro lado ainda, a tentação dum governo minoritário do PS que, não tenho dúvidas, iria ser bem visto pela direita, só iria conduzir o PS ao desaparecimento a termo certo e, por isso mesmo, não teria dificuldade em ser, por ela, aceite, não constituirá, assim, alternativa credível, a não ser que o PS continue na senda da alegre autodestruição dos últimos e desastrados tempos.

Aqui chegados e não podendo serem convocadas eleições nos tempos mais próximos, o que a direita preferiria, um entendimento à esquerda e que obrigatoriamente incluiria o PC será para o PS o desejável, mesmo que não desejado.

Estará no entanto o PC interessado num entendimento político que possa conduzir a um governo maioritário, quando estará em crescendo e o PS ficaria entalado entre ele e uma direita a recuperar e, a prazo, vir o PS a pagar caro por isso?

Não sei e provavelmente ninguém, nem mesmo no PC, saberá, dependendo da já citada e futura correlação de forças que sair das eleições.

Um PC fraco mas ainda assim necessário para fazer maioria, levaria o PS a fazer exigências inaceitáveis para o PC, mas um PC com alguma força eleitoral, o que até se perfila no horizonte, poderia permitir ao PS ser mais maleável e chegarem a um extraordinário entendimento politico. Um entendimento difícil, mas que alcançado seria respeitado.

A verdade é que estes caminhos são difíceis, mas a historia mostra que o PC já votou em Soares e já se coligou na CML, naquela que foi a melhor gestão autárquica da capital.

Muitas e fortes oposições internas, tanto no PS como no PC, poderão surgir.

Curiosamente mais fáceis de contornar no PC do que no PS que anda a trilhar os caminhos da autoflagelação.

Mas ainda assim esta é uma possibilidade que já ninguém, a começar pelos meios de comunicação social, afastam do horizonte político.

E são vários os indícios dessa possibilidade, goste-se ou não dela.

No PC, onde as dúvidas e dificuldades poderiam ser maiores, as últimas declarações de Jerónimo, a tranquilidade com que as produziu na TVI, nomeadamente afirmando estar o PC pronto a ir para o governo, as sondagens conhecidas e até declarações de outros dirigentes como António Filipe, permitem especular que um dos caminhos que poderá ajudar a uma aproximação seria a existência dum candidato comum ou pelo menos o apoio comum a Sampaio da Nóvoa.

Já no PS as declarações de Costa sempre comportaram uma retórica mais à esquerda do que o habitual e não seria completamente surpreendente se desse passos nesse sentido.

Aliás tal possibilidade é muito real, tendo em conta que o PS acabará por apoiar o ex reitor da UL e o PC já afirmou que contribuirá para uma vitória dum candidato desse tipo.

Veremos, mas provavelmente a situação eleitoral, se não mudar muito e haja uma vitória do PS ou da coligação de direita ainda que sem maioria absoluta, acabará por empurrar Costa para a necessidade de entendimentos à esquerda e, ao PC, se este tiver um crescimento razoável, para a necessidade de se afirmar como partido de poder, assim sejam salvaguardadas questões para si fundamentais.

A direita teme mais do que se imagina essa possibilidade, porque não só faria cair por terra a esperança de ter eleições a curto prazo e aproveitar um eventual e possível descalabro do PS, mas porque veria o caminho da sua ofensiva ideológica chegar ao fim.

Muitos portugueses que antes não estariam preparados para uma experiência política deste tipo, parecem hoje sociologicamente mais disponíveis.

Será possível? não sei, mas quem está mais entalado neste momento e nos próximos meses, parece ser o PS.

 

Citizen Red

 
 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A ilusão do PS



A ilusão do PS é grande mas não tem grande sentido.
Com a vitória de António Costa os militantes do PS acreditam vislumbrar uns quantos amanhãs que cantam, que não estou certo lhes seja proporcionado.
São os velhos militantes que esperam ver novamente abrisse-lhes as portas do poder e os jovens turcos ansiosos por poderem chegar-lhe mais perto.
No entanto essa ilusão de que agora o PS poderá, sozinho, destronar a direita do poder, através duma maioria absoluta, é tão ingénua como irreal.
É certo que um PS liderado por António Costa irá provocar alguma perturbação politica, mas a primeira e mais significativa e talvez mesmo única alteração, será, estou certo, na canibalização da extrema esquerda, cujo eleitorado típico irá deixar-se seduzir por um PS de capa mais de esquerda, com punhos erguidos e cravos na lapela, o que muito provavelmente conduzirá o BE a reduzir-se à sua antiga expressão rondando os 3/4%, para além de tirar margem de manobra aos emergentes partidos e movimentos dissidentes do Bloco que acabarão por ter que esperar por melhores dias para poderem ter expressão parlamentar, o que, podendo fortalecer ligeiramente o PS, não aumenta, realmente, os resultados da esquerda no seu conjunto.
Já relativamente ao sonho de poder o PS penetrar no eleitorado do PCP, não parece que este seja tão vulnerável aos apelos duma sereia socialista e a subida consistente nas últimas eleições não augura nada de bom para os lados do Rato.
Provavelmente o PCP poderá ainda é acabar por seduzir alguns desiludidos com a trajetória descendente do Bloco e, também por via disso, aumentar ainda mais, o seu resultado eleitoral.  
Mas também não é verosímil  que a direita com a subida de António Costa à liderança do PS não vá aproveitar para, nos próximos meses, embalados por algum abrandamento na austeridade, lembrar até à exaustão os malefícios da governação Sócrates, que facilmente colará a Costa.
E esse discurso acabará por deixar de pé atrás muitos dos eleitores tipicamente de centro que o PS almejaria conquistar ao PSD e que, muito provavelmente, mais facilmente se deixarão seduzir pelo novel partido do Marinho Pinto. 
Ou seja o PS ficará entalado e à direita terá pouca margem para crescer nesse eleitorado, mais do que já fez e, acossado pelo mais que provável aparecimento do populismo do novo partido anti sistema do rechonchudo Marinho Pinto, acabará por ver fugir-lhe uns quantos eleitores que contava para a sua ilusão em alcançar uma maioria absoluta.
Assim sendo, o que acontecerá será aquilo que facilmente se previa, mas que, o PS embebedado pela ansia de uma maioria absoluta e não tendo capacidade para perceber o alcance dos últimos resultados eleitorais, teima em não aceitar: a inexistência de qualquer tipo de maioria absoluta decorrente das próximas eleições legislativas.
Em consequência, o PS podendo aumentar ligeiramente a sua expressão eleitoral e até tentar ter mais votos que o PSD e CDS juntos, não conseguirá, nunca, alcançar essa ansiada maioria absoluta, que, aliás, os portugueses, vêm demonstrando não pretender atribuir a nenhum partido isoladamente.
Certo é que a direita não conseguirá atingir o poder de modo próprio e só uma ajuda do PS lhe poderia proporcionar essa ambição.
Já o PS, se quiser protagonizar uma mudança nas politicas de empobrecimento do governo de Coelho, provavelmente teria, sempre, que se apoiar no PCP ou então aliar-se ao populismo de Marinho Pinto ou a um CDS divorciado do PSD, se algum deles tiver expressão eleitoral suficiente para isso, o que não se vislumbra provável.
Parece assim que a mudança de liderança no PS, muito impulsionada pela ilusão de que uma maioria absoluta seria possível com Costa e não com Seguro, acabará por, ao invés, ser uma enorme desilusão para a tribo socialista.
O PS, com Costa, pode fazer com que os seus militantes e simpatizantes votem mais felizes, mas, seguramente, não atingirá mais votos ou a felicidade de uma maioria absoluta.
 
citizen red, 29/09/2014 
   


terça-feira, 3 de junho de 2014

A farsa da falsa mudança.

O medo da mudança é grande, particularmente nos partidos instalados confortavelmente no salão, até agora restrito, da confabulação politica.

As eleições assustaram muito os partidos do chamado centrão, cada vez mais pequeno e, por isso mesmo, fazendo soar algumas campainhas de alerta nos ouvidos tísicos do poder instalado, assim que sentiram no ar a possibilidade de algo poder estar verdadeiramente a mudar e negativamente afeta-los, rapidamente passaram à congeminação duma saída que lhes fosse inquestionavelmente favorável.
 
Com o diminuir da percentagem eleitora, real e prevista, dos partidos que sempre dominaram a governação em Portugal, para além do aumento de várias forças politicas menos submissas, a que se acrescentou a onda que varreu a europa e comprovou que desta vez talvez não haja retrocesso, surgiram de imediato propostas que têm o objetivo de alterar o equilíbrio do sistema eleitoral, puramente proporcional, e, consequentemente, transforma-lo de forma a promover artificialmente o nascimento de maiorias absolutas.

Esse é um interesse comum a quem se viu ameaçado no status quo politico partidário, PSD/CDS/PS e que, rapidamente, começou a instigar e promover tal mudança.

Logo após o fim de semana eleitora para as europeias vimos, ouvimos e não podemos ignorar, essa eminência parda da direita governativa, que do alto da sua artificial estatura politica e académica, Relvas de seu nome e "o aldrabão" de cognome, veio afirmar a necessidade de alterar o sistema eleitoral, ressuscitando propostas que levariam ao desrespeito da proporcionalidade e matando ou ferindo irremediavelmente os partidos mais pequenos, incluindo, naturalmente o seu parceiro de coligação, amarrado assim e durante muitos anos á coligação atual e que o levará também e inevitavelmente a definhar e finalmente esfumar-se do espetro politico nacional.

Mas também dias depois e não por acaso, mas aproveitando de forma oportunista a necessidade de sobreviver partidariamente, Seguro, essa insegurança politica que ainda governa o PS, tirou da sua coçada cartola esse coelho requentado e estafado sobre a necessidade de alterar o sistema eleitoral, temperado com a demagógica e populista ideia de que se deverá baixar drasticamente o número de deputados para poderem passarem a ser eticamente irrepreensíveis e, coincidentemente com o PSD ambos ameaçados de, drasticamente, verem fugir-lhes a ilusão absolutamente maioritária do poder, propôs o mesmo que o companheiro Relvas. Bonito e revelador.

Essas personagens e os seus partidos, interpretando, é verdade, os receios dos seus militantes e amigos do peito em perderem o poder e as suas obvias vantagens, pensando ainda ser reversível o estado de espirito dos eleitores e continuarem a crer que lhes é possível voltarem a ter gloriosas maiorias absolutas, colocaram na agenda mediática essa salvadora proposta, que, sorrateiramente, vão tentar aprovar, como se as suas intenções fossem desprovidas de interesse próprio e não correspondesse, como é bom de ver, à última possibilidade que têm de, estrategicamente, inverterem o seu declínio eleitoral e social.

É, evidentemente, um interesse comum a PSD e PS e uma ideia que nos próximos tempos veremos alguns dos arautos do status quo atual e fervorosos adeptos do centrão, aproveitar para teorizar e defender como única forma de regenerar um sistema que eles próprios vêm construindo e dominado sempre na defesa dos seus interesses próprios.

Outros, quais virgens envergonhadas com os seus desejos reprimidos pela necessidade de cultivarem uma áurea de compostura e desvelo democrático, calar-se-ão ou, redondamente discorrendo, deixarão correr o marfim na expetativa de colherem os benefícios da sua abstenção politicamente discreta.

Esperemos, então, que os cidadãos eleitores não se deixem enganar com falsas promessas de virtudes ilusórias, pois os mesmos que lhes oferecem essa promessa, serão aqueles que os deixarão órfãos de controlo politico plural, num futuro e monocromático Parlamento submerso nos tons escuros da sua, mais que provável, frustração.

Lisboa, 3/06/2014   

 

terça-feira, 27 de maio de 2014

A ressaca das eleições

O resultado das eleições europeias foram madrastas para alguns e principalmente para os comentaristas do costume.
 
Com a emersão da extrema direita na maioria dos países da UE que demonstrou, de forma infeliz e impensável o descontentamento dos cidadãos europeus com a atual UE e as sua politicas, a realidade é que em Portugal, no 40º aniversário do 25 de Abril, fomos felizmente brindados com uma das mais expressivas vitórias da esquerda e consequente derrota da direita caseira com uma descida tão significativa como esta passar de mais de 50% dos votos para menos de 30%, ou seja uma queda de mais de 20 pontos, com a característica importante de que a esquerda mais combativa para com a troika e as politicas recessivas e de empobrecimento da UE, contabilizar em conjunto mais de 25% dos votos o que constituiu uma subida que também ajuda a colocar, para além do mais, os partidos do chamado arco da governação (da troika) abaixo dos 2/3 dos votos o que lhes tem permitido jogar com as revisões da Constituição a seu bel prazer.
 
Mas o que as eleições também evidenciam é que com a alteração que se registou no comportamento do eleitorado europeu e também português, muito provavelmente tão cedo não irão acontecer mais maiorias absolutas e também por isso a posição de A.J. Seguro, provavelmente, não poderá ser contestada porque os resultados alcançados pelo PS seriam sempre estes e não aqueles que os seus dirigentes gostariam que fossem.
 
Podem, por isso, os comentaristas de serviço continuarem a especular sobre como dividirão o poder PS, PSD e CDS que a abstenção, mas principalmente os votos brancos e nulos e a votação em particular na CDU e em Marinho Pinto não augura um retorno ao velho rotativismo politico e que as votações em quase todos os países europeus confirmam, apesar de aí já ser natural essa dispersão partidária acontecer.
 
Mas também outra evidência que se retira destas eleições é que provavelmente não havendo uma maioria absoluta da direita unida nem mesmo do PS, estando, a pouco mais de um ano das eleições, a coligação de direita a cerca de 20 pontos e o PS a mais de 15 pontos de distância desse resultado, as alternativas terão que ser encontradas à esquerda.
 
Com o PS com uma liderança constantemente posta em causa e que nunca mostrou abertura para poder fazer pontes com a CDU e o BE, parece poder ganhar força e credibilidade uma liderança que consiga fazer pontes de aproximação entre a esquerda toda e não vejo, nesta conjuntura, outra personagem com capacidade para isso senão João Soares que em tempos ajudou a promover a coligação por Lisboa e encarna claramente a ala mais à esquerda do PS.
 
A breve prazo esta não será uma hipótese, mas antes uma necessidade para o país.
 
Talvez assim se pudesse pensar em, verdadeiramente, convergir a esquerda para uma alternativa real de governo e de novas politicas económicas e sociais.
 
Assim todos os preconceitos e desconfianças entre as forças de esquerda possam se ultrapassadas
 
Finalmente estes resultados trazem uma outra evidência. 
 
É que com os números tão baixos alcançados pela coligação de direita, esta, tão cedo, não conseguirá sobreviver em termos de candidatar-se a formar governo, senão em coligação.
 
Só que essa indispensável, nesta altura, coligação, irá a prazo acabar por devorar um dos partidos, naturalmente o mais pequeno, e, por isso, o CDS terá a breve trecho os seus dias contados enquanto partido independente do seu futuro devorador, PSD, com a agravante de, atendendo à sua já escassa expressão eleitoral, nem a habitual tendência para se virar em desespero para o PS, poderá agora, entretanto, ser usada.
 
Parece pois que a derrota da direita poderá ter sido bem mais vasta do que ele própria pretende fazer crer, sendo que, também o PS terá, por muito que isso lhe custe, mais cedo ou mais tarde que assumir, ter perdido a ilusão de poder ser poder sozinho.
 
Assim sendo o caminho para uma alteração profunda da composição do espectro politico em Portugal está em marcha e a possibilidade de uma alternativa consistente à esquerda que altere o rumo do país e que inclua todos, é possível.   
 
Lisboa, 27/05/2014
 
 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

OS PROBLEMAS CAPILARES DO GOVERNO



Machete foi nomeado ministro para tentar superar um chamado défice de credibilidade do governo que adviria, segundo alguns, da falta de mamíferos com alguma idade, se possível já avançada.

A famosa falta de cabelos brancos.

A entrada do homem no grupo de comparsas do 1º ministro superava isso e pelo caminho premiava os bancos sempre solícitos no apoio ao governo e particularmente ao padrinho Coelho, que vinha com afinco implementando as medidas sempre e há muito reclamadas de completa subversão do estado social a que eles mesmo gostam de apelidar de despesista.

O problema é que o homem já com idade avançada, como se pretendia aliás, sofria de mal irreversível.

Na verdade, durante todos estes anos em que esteve mais discreto, ocupado nas suas lides profissionais, desdobrou-se em trabalhos vários e simultâneos num afã de economia caseira que lhe proporcionasse um futuro mais estável e próspero.

Assim dedicou-se a vários bancos onde desempenhava funções esmeradas a troco de alguns, avantajados, euros mas, como era muita a pressão, o trabalho e as influências a traficar, o seu cabelo começou a escassear e ficar ralo.

Ora, naturalmente passados esse tempo de afincado labor a que acresceu a sempre fatigante tarefa de arrecadar com êxito os muitos e variados trabalhos e avenças com o estado, que o seu escritório de advogados sempre e constantemente conseguiu concretizar, o seu escalpe foi diminuindo na mesmíssima proporção do êxito das suas patrióticas tarefas.

E foi assim que passados anos de grandes e relevantes serviços prestados à república, tenha sido no sector bancário ou no aconselhamento jurídico aos sucessivos governos, que o nosso primeiro Dalton se lembrou desse curriculum e resolveu, miraculosamente, chamar a si e para o pé de si este australopiteco que definitivamente lhe iria resolver o tal problema de credibilidade através dos cabelos brancos que emprestaria ao (des)governo de Portugal.

Só que, infelizmente, o homem tinha já passado tanto e tanto trabalhado, que a sua cabeleira já não era a dantes e, escassa que era, tinha-lhe caído na proporção das vantagens que foi tirando ao longo dos anos de farta comezaina à mesa do estado e dos sempre mui nobres e leais bancos portugueses.

E assim, quando o homem foi chamado a desempenhar a sua, talvez, última, relevante e patriótica tarefa, salvar da desgraça e da desonra o governo do seu correligionário e amigo Coelho, o cabelo que seria o seu trunfo e o dos que a si tinham recorrido, já não existia, por ter desandado e, consigo, a credibilidade que já não sendo muita agora era, agora, nula.

Mas Machete, sempre pronto a tudo fazer para não decepcionar ninguém, especialmente os seus amigos e agora companheiros de infortúnio, empenhou-se em demonstrar a sua capacidade de realização e, a torto e a direito, foi fazendo os possíveis para que ficasse claro que sua falta de cabelo não era casual ou irrelevante mas traduzia e mesmíssima falta de credibilidade equivalente.

Foi borrada atrás de borrada.

E assim, por falta de cabelos brancos no governo, que se manteve, conseguiu-se perceber, até nesse particular – a incapacidade e incompetência do Dalton maior.

Consequentemente, há falta de cabelo em especial branco do novel ministro correspondeu a continuação de falta de credibilidade do novel governo.

Coisa que não se resolveu nem parece poder resolver-se.

Problemas capilares, portanto!

Felizmente pensará o 1º Coelho.

 
Citizen-red, 07/10/2013 

       

 

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

SOU BENFIQUISTA NÃO SOU JESUÍTA!


 
Não gosto da companhia de Jesus.

Muitos benfiquistas parecem gostar mais do Jesus do que do Benfica.

O homem ansiado por muitos há cerca de quatro anos atrás veio dar ao glorioso, registe-se, uma ambição e implementar uma forma de jogar que todos queríamos, admirámos e usufruímos.

Eram bons tempos.

Parece que foi há tanto tempo, quando o Benfica jogava com alegria, velocidade e fundamentalmente, o que era uma clara inovação naquela época, pelo menos no clube, fazia o que então se chamava, pressão alta.

A pressão era tão alta, bem feita e pouco usual cá no burgo, que o Glorioso ganhava por números expressivos e resolvia a maioria dos jogos facilmente e depressa.

Todos exultávamos e andávamos nas nuvens, tal qual a altura da pressão.

Mas os tempos foram passando e a pressão alta também.

Hoje passados os tais quatro anos, o Glorioso, joga a velocidade mais moderada e tristonha e a pressão mais dá a impressão de ter irremediavelmente baixado tanto como a velocidade e engenho de alguns jogadores, em que Jesus continua a apostar, que com o tempo mais parecem Porto, mas Vintage, estraga-se rapidamente quando aberto.

O homem, que todos admirámos, hoje não consegue manter o nível de exibições constante, imprevisível e temida pelos adversários, mesmo os do nosso empobrecido campeonato e dá claros sinais de que o tempo dele já passou, como ultrapassada está a sua retórica primária, confusa e tristemente demagógica.

Estes sinais aliás estavam há muitos escritos nas estrelas e os dois últimos anos provaram que por um motivo ou outro a esperança que por vezes parecia renascer foi sempre traída pela crua realidade dos finais de campeonatos.

Perdemos sempre para os “andrades”, não só os campeonatos, mas, pelo caminho, também quase todos os jogos directos, o que, num campeonato fraquinho como o luso, é mais do que meio caminho andado para a desgraça.

Desgraça do Benfica que perdeu os títulos, que tanta falta fazem no nosso espectacular museu e desgraça dos benfiquistas, que à falta de alegria das vitórias ainda têm que aturar os “andrades” e “lagartos” desta vida.

O homem não serve e está definitivamente ultrapassado, em fim de ciclo e esgotado tática e emocionalmente.

Já não consegue surpreender os adversários, galvanizar os sócios, seduzir os jogadores, nem finalmente e apesar da boa imprensa que lhe proporcionaram, arregimentar comentadores.

Se dúvidas houvesse o penoso final de época passada, com derrotas por demérito próprio, cobardia tática e incapacidade anímica, a que só a final da liga europa consegue escapar, foi o último e definitivo sinal de que o tempo de Jesus tinha acabado, o ciclo, embora tardiamente teria que ser encerrado e o glorioso a necessitar urgentemente de reinventar uma nova esperança em vitórias e exibições à Benfica, mudando de treinador.

Era a mais ponderosa, prudente, evidente e urgente medida de gestão desportiva/futebolística, que se exigia.

Se a isto acrescentarmos a necessidade de galvanizar o universo clubista para aderir sem hesitações à enorme, muito saudada, mas também arriscada gloriosa empresa, que foi o libertar-nos das grilhetas da olivedesportos, criando a nossa TVBenfica, orgulho de todos nós, mais se tornava urgente tomar a medida que apesar de tardia era no fim da época passada a única esperança que nos restava para inverter o rumo de conformismo que se apoderou dos dirigentes e que se arriscava apoderar-se de todo o universo benfiquista. Veja-se as fracas assistências aos jogos comparadas com as normalmente usuais.

Ora, passou-se tudo ao contrário e quando não havia motivo algum para continuar com um treinador, que em quatro anos ganhou 1 campeonato, perdendo no mesmo período 3 campeonatos e 4 taças de Portugal, não contando com uma eliminação nas meias-finais da Liga Europa com o Braga e a derrota na final da época passada, aliás a única sem mágoa, terminando este ano a sua relação contratual, o presidente não só renovou por dois anos, com um contrato milionário mesmo ao nível europeu, como acrescenta, ao que consta e não desmentido, um prémio chorudo se ganhar o campeonato ou uma competição europeia.

Desacreditado perante tudo e todos e enxovalhado por um jogador na final da Taça de Portugal, Jesus foi salvo e até premiado pelo seu maior admirador de sempre e com quem tem uma ligação demasiado estreita e próxima atendendo às funções que, enquanto presidente desempenha e que aconselhariam alguma parcimónia, bom senso e até distanciamento. Vai-se lá saber porquê.

 Mas o problema é que alguns, provavelmente mais do que seria aconselhável, outros sócios, contra toda a lógica e razoabilidade defendem Jesus, como se gostassem mais dele do que do Benfica.

Não vislumbrando ou parecendo não querer vislumbrar que nesta altura e cada vez mais são maiores os danos que o treinador causa ao clube que as vantagens que lhe oferece e reconheço serem algumas mas infelizmente não muitas.

É uma fé messiânica no homem, uma atração para o irracional e uma ausência de espirito crítico que mais parece estarmos perante tempos tão idos e distantes, como aqueles em que os homens eram levados a acreditar e depositar os seus destinos nas mãos de quem melhor lhes vendia ilusões.

Eu sou benfiquista e recuso-me e não compreendo, quem, mais do que se deixar levar por fé, demagogia ou falsas ilusões e fatalismos – sem o homem não conseguiríamos nunca ganhar nada a ninguém, como se antes dele, nada de desportivamente importante tivesse sido alcançado no clube -, permite-se preferir ao clube e à sua glória, um homem, sem competência visível e cuja maior virtude, neste momento, é mascar pastilha elástica e dar palmadas nas nádegas de quem o traiu.

O que mais pode prejudicar o clube nesta altura é a cegueira de alguns, a, infelizmente, visão oportunista de outros e a complacência de quase todos.

Aquilo que se impunha e continua a impor fazer, não é alimentar uma ilusão ou aceitar um destino armadilhado, porque cada vez mais evidentemente irrealizável com este desorientado e ultrapassado treinador.

Só que quem manda no clube e aqueles que são o seus acriticamente seguidores claramente assim não pensam.

Na verdade e estranhamente, esses não passam sem a companhia de Jesus.

Eu, no entanto, não gosto da companhia de Jesus.

Eu sou Benfiquista não sou Jesuíta!
 
Lisboa, 25/09/2013

        

 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O desespero dos novos órfãos da crise




A crise longa, e que por força dos últimos governos mais longa se vem tornando, produziu muitos desesperados.
Foram os desesperados que resultaram dos inicialmente indignados.
Gente sem trabalho que depois passou a ser gente sem subsídio de desemprego.
Milhares todos os dias e que serão mais.
Famílias completas.
Jovens sem nunca terem experimentado, sequer, o mercado de trabalho, ou muitas vezes sem nunca terem trabalhado nas áreas das suas competências e em que as famílias investiram anos e economias.
Outros que se viram obrigados a emigrar, não por opção o que seria o desejável, mas por não terem outra maneira de se emanciparem ou simplesmente porque senão entravam em desespero.
Outros ainda que dum momento para o outro passaram, sem perceber como e porquê, a ser ricos e como tal desapropriaram-nos de parte dos seus legítimos rendimentos do trabalho ou de reforma.
Outros mesmo que deixaram de ter dinheiro para sobreviver e vivem à custa da caridade, coisa que pensávamos já ter desaparecido do quotidiano normal das famílias portuguesas.
Destes e são quase todos ou pelo menos a grande maioria dos cidadãos, depende a resposta que a crise necessita que seja dada.
Mas há uma grande parte deles que são também desesperados, não da crise social que atravessamos mas em resultado da situação politica que dela emergiu.
São um outro tipo de desesperados, mas em grande parte, são os mesmos e que por isso sofrem dum desespero duplo.
Votaram nos partidos do chamado arco da governação, que não do triunfo, e como tudo lhes saiu ao contrário do que imaginavam, uns, e outros sonharam, hoje sentem-se desesperados.
Os meus amigos do CDS ainda vá que não vá que como têm andado sempre com um pé fora do governo e dois lá dentro, ainda conseguem, a custo, mas conseguem, encontrar no videirinho que os comanda uma luz que lhes desculpa a má consciência de repetir o voto.
Já os meus amigos votantes no PS andam doidos entre o Seguro e o Sócrates, via António Costa, e as suas carícias oposicionistas ao governo.
Os que entregaram o seu destino nas mãos do PSD/Coelho, então esses, estão completamente desesperados porque não sabem o que hão-de fazer com o seu lindo voto, quando o homem que comanda os seus destinos é o mesmo que lhes rouba o destino que ambicionavam.
Todos estão desesperados porque lhes estão a ir ao bolso, da frente, de trás, do casaco, das calças, enfim, todo e qualquer bolso que tenham, e até que não tenham.
Mas o desespero é maior e duplo, porque não sabem em quem votar.
Não tendo coragem para mudarem o sentido tradicional do seu voto, seja por preconceito ou enraizamento sociológico, a verdade é que desesperam porque não conseguem dar um sentido útil e coerente ao seu desespero social e económico, pois, por muito que lhes custe admitir, estão a ir-lhes ao bolso de forma a afectar-lhes profundamente o seu nível habitual de vida.
Principalmente quando, ainda por cima, os arautos da sua desgraça, mostram desprezo pelas consequências das suas decisões e falta de escrúpulos na forma como as concretizam. 
Que fazer então quando sentem não ter nada nem ninguém a quem se agarrar politicamente.
Um vazio profundo e desesperante por não saberem o que fazer quando forem chamados a pronunciarem-se sobre o destino a darem ao seu desespero.
Sentem-se desesperadamente órfãos.
São, na verdade, os novos órfãos da política.

citizen red, 02/02/2013
 




   

segunda-feira, 15 de outubro de 2012


Empobrecimento sem causa


Estamos mais pobres, mais ainda não o suficiente.

Pelo menos não o suficiente para alguns que nos querem ver pobres o suficiente para poderem dizer que haveremos de renascer das cinzas e então, sim, seremos pobres mas felizes, comportados, obedientes e agradecidos.

Nessa altura seremos vistos como alguns gostam de ver as suas “criadas”, coitaditas, simples mas muito trabalhadeiras e acima de tudo discretas.

O melhor Povo do mundo, como um dos arautos do empobrecimento inevitável dos portugueses cinicamente apelidou os destinatários das suas brilhantes experiências económicas, já demonstrou que não sendo o melhor do mundo, como nenhum povo o é, é pelo menos um povo que, demorando a encher-se de razões, quando é necessário também sabe manifestar a sua revolta e sentimentos.

Foi assim durante muitas vezes ao longo da sua história, que sendo longa enquanto nação, alguns teimam em ignorar ou pelo menos desvalorizar.

E se nesta altura o empobrecimento do país é querido e resulta de uma ameaça e interesses externos ela é também fruto das cumplicidades e de vontades internas cujas principais, mas não exclusivas figuras, são atuais responsáveis governativos, que, dizendo-se eles próprios bons alunos, mais não esperam do que ser assistentes futuros dos seus mestres de hoje.

Mas a história que tem a curiosidade de se repetir, parecendo querer confirmar a razão atual do passado historiado, indica-nos que havendo esperança para o país, ela radica hoje, como antes, na vontade dos que aguentando muito, acabam por, mais cedo ou mais tarde, tomar nas suas mãos o destino das coisas.   

Soubemos fazê-lo por várias vezes ao logo da nossa História, como em 1383/1385 durante a primeira revolução popular da nossa história contra a grande nobreza e simultaneamente contra a intervenção estrangeira em Portugal, na altura personalizada pelo rei de Espanha que era casado com uma das pretendentes a trono de Portugal e em que foi decisiva a intervenção decidida e fundamental do povo miúdo de Lisboa que levou ao início da brilhante segunda dinastia.

Como também o soubemos fazer em 1640, uma vez mais e pelo impulso do povo, levando a que a intervenção estrangeira pudesse ser erradicada e os destinos que os Migueis de Vasconcelos queriam que fossem, para sempre, comandados por sotaque além-fronteiras, pudessem, novamente, ser, plenamente, assumidos pelos do burgo.

E mais tarde, já no sec. XIX, e apesar dos aliciantes ventos da revolução francesa e dos seus nobres e ainda hoje atuais princípios universais, fomos capazes, perante a necessidade de defender a independência nacional, por na linha, ou para além dela, uma outra ameaça externa.

Fado o nosso que, apesar de sermos pequenos em dimensão, pobres em recursos e atrasados em desenvolvimento, não deixamos de ser, constantemente, cobiçados, talvez pela curiosidade que despertamos pelas bem sucedidas aventuranças que desde sempre conseguimos conquistar e com elas as riquezas que, por elas, fomos amealhando.

Ora, hoje, diferentemente na forma, a verdade é que tendo sido aliciados para fazermos parte de uma europa económica e à qual queríamos pertencer, foi-nos destinado um papel de meros prestadores de serviços e simultaneamente de gulosos consumidores das exportações europeias que assim encontravam mais um punhado de ávidos europeístas que viam a sua condição de vida melhorar e por isso e compreensivelmente não questionaram a armadilha que nos armaram.

Esse paradigma económico em que deixamos, propositadamente, de produzir, para passar a consumir e a nossa economia passou a ser a de meros prestadores de alguns serviços, foi arquitetada pelos países que produziam e exportavam, como a Alemanha, a França e outros excedentários de produtos agrícolas e industriais e, mansamente acolhida e posta em prática pelos partidos do centrão que, viram, aí, a possibilidade de, estando no chamado arco governamental, poderem distribuir benesses e favores em troca de votos e apoios políticos.

Mas convém não esquecer, até pelo longo período do seu consulado, 10 anos, aquele que foi o principal artífice e responsável por toda essa politica e que contribuiu decisivamente, para, entre outras vergonhas, a inqualificável utilização dos chamados, à época, fundos sociais europeus que deram origem à existência no Vale do Ave a maior concentração de Ferraris do Mundo enquanto as falências e consequente no sector têxtil eram aos milhares, ou à construção desmesurada de autoestradas para distribuir mercadorias e pescas que não fabricávamos, por termos desmantelado esses sectores com incentivos comunitários, ou à inesquecível proliferação de duvidosas, para não dizer manhosas, universidades privadas sem corpo docente capaz, tudo decisões desastrosas para o país e cujo primeiro responsável, repete-se,foi o agora Presidente da República, Anibal Cavaco Silva, de cognome o cínico.

Foi na verdade o apreciador de Bolo-Rei à boca aberta que implantou, nessa época, o paradigma económico que Portugal e que ainda agora nos rege.

E hoje, com olímpico desplante, actua como se nada tivesse que ver com a situação económica do país, em que deixámos de ter uma economia produtiva e nos tornamos numa mera economia de serviços, alimentada por fundos europeus enviados como compensação da politica económica arquitetada em conluio com o diretório europeu e instigador de gastos numa overdose de infraestruturas, muitas vezes desnecessárias e que, quando país necessita, como hoje, de parar de gastar com as importações de quase tudo o que consumimos, não o consegue fazer, porque, exata e propositadamente, não produzimos o que necessitamos    

Mas curiosamente, ou talvez não, então, e até que a crise económica mundial estalou, vivia-se um proclamado amor entre os povos europeus e em que a solidariedade era coisa de realce. Afinal durou pouco.

Bastou que um vento mais forte em forma de crise mundial abanasse a estrutura económica e social da europa e, rapidamente, os povos “trabalhadores” do norte insurgiram-se contra os “preguiçosos” povos do sul, que, na realidade, lhes vinham alimentando a economia e as exportações comprando os seus produtos a troco de, para o poderem fazer, lhes aceitaram dinheiro emprestado e que foram, também, a causa do défice que eles agora invectivam.

Qual verniz que estala aos primeiros calores dos raios de sol de verão.

A solidariedade acabou e cada um que se safe.

O interesse que todos tinham em que os povos integrados do sul como, mais tarde os de leste, alargassem o mercado aberto e interno para que se pudesse escoar os produtos dos países ricos e produtores de bens industriais e agrícolas, foi esquecido e começou-se a cobrar de forma lucrativa, aliás, o pagamento da ajuda necessária.

Nem que isso provocasse, como está a provocar, um empobrecimento acelerado e destrutivo das pessoas e do país, cada vez mais enleado no pagamento apressado da dívida e dos seus juros agiotas.

E lá voltamos à questão inicial.

Será preciso, impõem-nos, empobrecer o país e as pessoas para resolver um problema de sobre-endividamento, fomentado, aliás, por aqueles que nos podem ajudar e com essa “ajuda” vão lucrando, e muito.

Mas verdade seja dita, impõem-nos pela convicção furiosa de alguns, que, malfadadamente, nos governam, nessa receita, que por isso mesmo, tem sido servida em dose forte e reforçada, na ansia de que, podendo fugir-lhes o tempo, o mal não fique pelo começo.

Mas há algum motivo para que não se encontre uma solução que não passe por empobrecer Portugal.

Claro que não, dizem muitos, esclarecidos e competentes.

Há outro caminho, até porque há sempre outros caminhos.

Há é uma fé ideológica das aves raras que nos desgovernam, em que é necessário destruir o paradigma social existente e adequado a um país da europa desenvolvida e com que eles, na verdade, não simpatizam e então, purificando-nos através do empobrecimento, quais discípulos de Pol Pot no Camboja dos anos 70, seremos mais honrados, mas também e daí o interesse estratégico, mais submissos e, obvia e consequentemente, mais baratos e manipuláveis.

E assim duma cajadada matam-se vários coelhos, ou, no caso, mata-nos o Coelho, obedecendo aos interesses da Alemanha que não quer acabar com o euro, mas também não quer suportar os custos dessa sua grande vantagem que é a existência de um mercado livre para exportar os seus produtos, empobrece-se as pessoas e consequentemente o país, tornando, através de uma alta taxa de desemprego, a mão de obra mais barata, mas também mais submissa, destruindo-se simultaneamente a estrutura básica para a existência de um estado social, que, para sobreviver, naturalmente carece de despesa, no caso útil e justificada.     

Mas ainda que a dívida que se quer combater, mas que na verdade nunca conseguiremos reduzir através de politicas contracionistas e recessivas, seja demasiado alta e até condicionadora dum desenvolvimento sustentado, a verdade é que não pode ser pretexto para punir um povo que não contribuiu diretamente para  ela.

Na verdade, sendo natural que todas as pessoas queiram melhorar a sua condição de vida, o caminho proposto e trilhado nos últimos anos, foi-o em consequência das orientações dos diversos decisores políticos nacionais – o centrão - mas também pelas orientações e politicas europeias que ratificaram os investimentos nacionais que, suportados pelo aumento da dívida dom país, permitiram o enriquecimento de alguns sem que houvesse uma necessária, justa e reclamada diminuição das desigualdades sociais e económicas das pessoas e do país.

E se é verdade que a população sufragou as politicas e os políticos que nos governaram nos últimos quase 40 anos em democracia, não foi o povo que sempre pagou impostos e nunca teve idade de reforma aos 50 anos, nem trabalhou, em regra, menos de oito e mais horas diárias, como acontecia em vários dos países europeus, que agora deverá ser punido com uma austeridade brutal e assassina que põe em causa um nível de vida razoável para um país europeu, mas que também arrasa a economia e condena ao desaparecimento, sem alternativa como já está a verificar-se, muitas pequenas e médias empresas que constituem quase 100% do tecido empresarial português, atrasando o seu desenvolvimento. Citando alguém, "é a economia estúpido".   

Evidente se torna, pelo nefastos e irreversíveis efeitos que cria às pessoas e à economia, e aliás já visíveis, mas também porque não se vislumbra motivo que possa ser directamente e em exclusivo atribuído aos desmandos dessas pessoas, o citado melhor povo do mundo, que a receita imposta e já testada noutros países com resultados tristemente conhecidos como devastadores, também para as pessoas e para economia, empobrecendo-as, e que os paus mandados nacionais aceitaram e conjuntamente subscreveram com os enviados troicanos, não tem razão de ser e devemos, por isso, quanto antes interrompê-la.

É que, havendo uma causa directa para o empobrecimento – as intensas políticas restritivas e recessivas, não há causa ou razão profunda enquanto motivo justo, compreensível e aceite pelas pessoas, para que tal aconteça.

Tanto mais que a mentirosa virtude que ela comportava – a diminuição do deficit – foi impiedosamente desmentida pela realidade, por muitos, aliás advertida.  

E por isso, mas também porque existe alternativa a esse caminho miserabilista, tal como no Direito o enriquecimento sem causa é juridicamente inadmissível, também em Portugal, nestes tempos recentes, o empobrecimento, por ser sem causa, deve ser politicamente recusado, por inadmissível.

 E se esse empobrecimento imposto é ilícito, porque imoral, não aceite como princípio e cada vez mais contestado, deverão as pessoas, o tal “melhor povo do mundo”, relembra-se, mais uma vez e como outrora na nossa história, levantar-se do chão e rejeitar, claramente, um caminho para o fundo dum buraco negro para onde nos querem empurrar, uma vez mais por imposição do exterior, mas com a cumplicidade e até o entusiasmo transbordante dos atuais Migueis de Vasconcelos ou Condes de Andeiro da nossa praça.

Para bem de todos e de cada um de nós.

Citizen Red, Lisboa, 15/10/2012        

 

  

domingo, 2 de setembro de 2012

De volta

Estive fechado durante uns bons tempos.
Nada de especial, a não ser ter aproveitado para observar o nascer e crescer da crise, que fui fintando e à qual procurei não passar grande cartão. Não fossem os seus responsáveis ficarem satisfeitos por ela me poder estar a afectar.
Vi também o meu glorioso perder mais uma oportunidade de ser campeão nacional, mas a dupla de entendidos, Vieira e Jesus Ldª., não deixaram e parece que estaremos mais uns meses à espera do que possa acontecer lá para Março quando tudo normalmente costuma desabar. 
A não ser que as coisas comecem a tremer em Setembro e, como há eleições em Outubro, o amigalhaço Vieira dá um tiro no vizinho Jesus e escapa mais uma vez ao escurtínio dos sócios.
Aliás o bom Jesus ficou lá por isso mesmo, para poder ser usado ou descartado se as coisas em Setembro correrem mal.
Mas também assisti às receitas do costume na área da Justiça.
Como todos os ministros gostam de apoucar as massas, inventam umas alterações nos códigos penal e de processo penal, os mais mediáticos, mas também os processos, normalmente, mais céleres e esquecem o verdadeiro e grave problema nas outras áreas da justiça, especialmente, mas não só, na área cível onde tudo continua na mesma ou seja, com o arrastar dos processos, o desesperar das partes e o descrédito generalizado.
Enfim, como nas telenovelas, passa o tempo mas nada  de especial ou novo se passa.
Ou seja, continuamos à rasca, cada vez mais à rasca e com os mesmos rascas de sempre.
 
 
citizen red, Lx. 2/09/2012    

terça-feira, 8 de março de 2011

A hipocrisia dúplice

As gerações andam à rasca.

No Magreb, no Médio Oriente mas também na Europa connosco.

Na Tunísia, no Egipto, na Jordânia ou na Líbia, os desgraçados, os deserdados e os desesperançados fartaram-se e revoltaram-se. Das injustiças, da corrupção e dos desvios dos rendimentos que sempre vão entrando. Vindos do petróleo, das ajudas dos americanos ou dos turistas ocidentais.

Na Europa anda-se à rasca, muitos pelo menos, com a falta de emprego, com os salários encolhidos, enfim com a falta de perspectivas de vida.

Tudo coisas que parece terem acontecido agora, nos últimos anos, mas que, na realidade, têm vindo a ser o pão-nosso de cada dia.

Na verdade, se desde há muito a corrupção, a miséria e o desrespeito pelos elementares direitos das pessoas e pelas suas condições miseráveis de vida, eram conhecidas como evidências nos países árabes, não nos podemos esquecer que a falta de emprego, os salários baixos e essa especificidade portuguesa dos recibos verdes, são uma realidade conhecida da Europa, seja nos subúrbios franceses, nos campos de morangos espanhóis, como nas cidades e campos do velho rectângulo peninsular.

E a verdade, também, é que, se as gerações mais novas sofrem cada vez mais com essas realidades e desesperam com a falta de perspectivas profissionais e sociais, vivendo à rasca, não é menos verdade que para que se tenha aguentado tanto essa desesperante situação, quem tem vindo vivendo muito à rasca tem sido a geração dos pais desses enrascados, que tem suportado a sobrevivência dos filhos que vivem em casa até depois dos trinta, lhes paga o sustento e até os vícios e com isso tem adiado a interpelação dos responsáveis e, em verdade se diga, o despertar da revolta dos jovens, há muito, à rasca.

Tanto lá, no Magrebe poeirento ou no Médio Oriente escaldante, como cá, na Europa limpinha e fresca.

E se é sempre de enaltecer o despertar para a realidade, convém não esquecer os anos de mansidão cúmplice ou encantamento fácil, em que os nossos enrascados viveram.

Já nos confins do areal escaldante esse adormecimento é mais tolerável e compreensível se atendermos ao nível de educação e ao conflito e  instabilidade política-militar da região.

Mas esperemos mais um tempo e vejamos o que nos trás esta tardia revolução árabe. Se mais democracia e progresso ou mais fundamentalismo islâmico e retrocesso civilizacional.

Se a revolta era genuinamente popular ou tinha a mãozinha do radicalismo religioso.

Mas se a esperança em que o mundo árabe possa converter-se à democracia e ao progresso é comovedora, também seria muito interessante perceber porque é que se dá tanta ênfase ao problema nessa região e se releva os mesmos sinais de indignação e revolta no mundo europeu.

É que, não é por haver democracia que as pessoas têm menos direito em ser ouvidas e em ser tidas em conta as suas manifestações. Mas a verdade é que é isso que tem acontecido, seja pela agenda e simpatia da comunicação social, seja pelo interesse geoestratégico da política ocidental.

Aliás, no que toca à expectativa de que algo possa acontecer em Portugal em função das últimas manifestações de descontentamento dos precários, pelo menos da minha parte, confesso que é pequena.

E por duas ordens de razão.

Em primeiro lugar, porque a importância e o realce dado pela comunicação social e pelos agentes políticos ocidentais é muito diferente e hipócrita, trate-se de manifestações ou distúrbios na Europa ou algures nos países árabes.

A realidade é que uns carros a arder e Tunes, uns poucos milhares de pessoas a manifestarem-se em Tripoli, a destruição de monumentos no Cairo, ou o pegar em armas e combater as forças militares dos regimes aí instalados, são interpretados como manifestações de descontentamento genuinamente espontâneo e de carácter revolucionário por todos compreendido e aceite, e com que eu também simpatizo, mas dezenas de carros a arder e manifestações de desobediência de jovens nos subúrbios de Paris, como ainda há pouco tempo aconteceu, ou mais de uma centena de milhar de pessoas a protestar nas ruas de Lisboa por mais de que uma vez num ano, ou confrontos entre manifestantes e forças policiais na Grécia, são coisas de somenos, praticadas por desordeiros e delinquentes a que não se pode dar importância a não ser se for necessário reprimir, prender e até levar a julgamento, mesmo que fossem sindicalistas passivos, quais perigosos terroristas.

Mas também, e verdade se diga, no que toca ao que se passa cá no burgo, a nossa democracia é tão madura, tão enraizada e forte, que o bom povo português quando se manifesta, de tão ordeiro e cumpridor que é, ninguém leva a mal ou passa cartão, mesmo se muitos milhares vão para a rua ou andam manifestamente descontentes com a situação

Mais uma vez a dualidade na análise a situações que, não sendo iguais, não deixam de ter pontos de contacto relevantes.

Só que a maneira de ser dos portugueses, não deixa de ser a principal causa de tal desconsideração.

É que de uma coisa podemos ter a certeza, as manifestações em Portugal, como aliás grande parte da sociedade, sofre da forte influência católica.

Aqui segue-se a liturgia mariana e quando temos de protestar, lá vamos, mas, tal como em Fátima fazemo-lo de joelhos perante o omnipresente, em voz baixa, submissa e ligeiramente cantada, qual Avé Maria, e a única coisa perigosa que seguramos são os paus de bandeira de madeira fina, mais parecendo velas ardentes na nocturna procissão a que se deu o mesmo nome.

Pode-se portanto dormir descansadamente, que nem em França do clã Le Pen, haverá revoluções contra a miséria dos subúrbios, nem em Espanha a vontade de independência Basca ou Catalã é para ser levado a sério, os mais alguns soldados britânicos, mais que provavelmente mortos em guerra alheia, agora no norte de África do petróleo serão importantes, ou os bons conselhos do BCE e das agências de rating que atiram Portugal para a recessão e para a miséria muitos dos precários e seus familiares que aos milhares se manifestarão nas ruas, terão importância ou levarão os coniventes com tal submissão a serem responsabilizados.

Nem tão pouco o perigo da Al-Quaeda estar a preparar-se para, qual abutre, mandar às urtigas a democracia e o progresso dos povos sublevados e caladinha como está, aguardar só o melhor momento para tirar proveito das irresponsabilidades dos imbecis lideres ocidentais e, em vez de mandar abaixo prédios elegantes em cidades ocidentais, permite-se assistir sentada à destruição das parcas infra-estruturas físicas e sociais dos países em sublevação, bem com o que, durante anos foi o mais poderoso inimigo do islamismo radical nesses países, o nacionalismo pan-árabe de carácter laico.

A tese agora dominante é que é importante ser revolucionário no continente alheio, destruir o poder de quem tem petróleo e não é das nossas simpatias, nem que para isso possamos levar com um exército de emigrantes magrebinos a bater-nos à porta, o brilhante Obama tornar-se tão baço como os tea party em política externa e novamente em tempos de crise, passarmos a gastar os milhões que nos faltam para combate-la, em expedições militares onde alguns morrerão, na esperança racista de que não sejam os nossos.

Não há dúvida que todos nós só vemos o que queremos e quando queremos, mesmo que a paisagem social ou politica seja a mesma há muito tempo. Aqui ou nas dunas do petróleo.

Precários, mancebos e outros que tais, lutem, mas lutem principalmente contra a vossa miopia e o vosso alheamento cúmplice. 

Citizen.red, 08/03/2011.